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sábado, 15 de março de 2008

O homem estátua (lembram?)

Há um tempão atrás eu escrevi aqui sobre o homem estátua que eu vi carregando um guarda chuva na beira do rio (chequei, foi dia 8 de outubro). Eu tava arrumando uns arquivos antigos no computador e vi que eu, afinal, tirei foto dele e tinha esquecido! Pena que foi com a minha câmera tosca... Mas pra quem lembra e ficou curioso, tá aí. Pena que as fotos estão meio ruins, e que ele nao estava no parque verdinho que nem da primeira vez que eu vi. Mas pelo menos tem uns pombos, e tem ele levantando o dedo pra galera, dá pra ter uma idéia.



quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Querido diario,

Hoje de manhã eu tava prestes a começar a trabalhar em um freela quando a Julia me ligou e disse que o dia tava lindo e a gente tinha que ir passear. Eu fiquei meio assim, eu tinha que fazer o trabalho, mas po, dias lindos e ensolarados em Londres não são uma coisa com a qual a gente pode contar... Sei lá por que, eu estava com uma página de horóscopo aberta, e resolvi ler o meu: "As obrigações com sua saúde e com o trabalho tiram você da rota mais confortável da rotina. Contudo, cuidar direito das obrigações retornará em um bom desenvolvimento." Ou seja, era pra eu me dedicar ao trabalho. Mas eu só acredito em horóscopo quando me convém, então foda-se, peguei o laptop e fui passear com a Julia.

O dia não tava lindo, ele tava espetacular. Quando fui trabalhar, sentada num canteirinho na beira do rio (acho que TODO post meu fala em beira do rio, né?) vi que o laptop tava sem bateria e tive que ficar carregando aquela porcaria o dia todo sem trabalhar porra nenhuma.

A gente tirou fotos (pena que o cara da estátua não tava lá... ele tava ontem mas eu tava sem a câmera), a gente falou merda, a gente tirou mais fotos, a gente perturbou pombos e folhas e corredores (bem, eu perturbei, ao menos), e tudo foi outonal e iluminado e lindo.

Mas olha só uma coisa:



Tirei essa foto hoje, pra mostrar que o parlamento continua lá. Ontem foi um dia de lembrar de um evento que quase destruiu tudo, e hoje é 6 de novembro, e ele continua lá, inteirinho. Achei isso uma grande metáfora pra alguma coisa.
Ah, sim, porque eu enxergo metáforas, agora. É quase uma versão mais pedante de "I see dead people".

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Homem-estatua

Agora eu caminho na beira do rio, e está sendo uma experiência muito mais prazerosa do que eu pensei que seria possível. Mas enfim, isso fica num post mais longo pra outro dia.
Mas tá. Chegando ali no London Eye, tem os turistas todos e, por consequencia, os artistas de rua que tentam ganhar trocados com os turistas. Tem sempre os homens-estátua, e as pessoas vestidas de século XVII, e os músicos (tipo o carinha do violão que toca uma versão meio chata de I fought the law), os eventuais malabaristas, etc. Muitas vezes são os mesmos, dependendo do horário em que eu vou. E eu fico imaginando como será a rotina desses caras... Aquele é o trabalho deles. Será que o cara do monociclo considera o vestido de pirata como "colega de trabalho"? Será que tem rivalidade entre as estátuas, as semi-estátuas, o caras vestido de côrte do Luiz XVI e o casal vestido de côrte do Luiz XVI só que pintado de dourado e parado como uma estátua?

Hoje eu vi uma coisa muito curiosa. Pena que eu estava sem a câmera, teria dado umas belas fotos.
Um cara andando no parque, presumo que ele fosse um homem-estátua, mas eu nunca tinha visto esse por ali antes. O que era curioso é que ele parecia um cara londrino normal saindo do trabalho: sobretudo preto-acinzentado, carregando um guarda-chuva grande da mesma cor. Só que ele também era preto-acinzentado. No rosto, na careca, etc. E ele era seguido por pombos preto-acinzentados. Foi uma cena surreal. Eu olhei, achei estranho, aquele inglês no parque verdinho, todo monocromático, sendo seguido por pombos. Weird.
Andei mais um pouco, dei meia-volta, e quando passei por ali de novo ele estava no meio de um cercadinho metálico preto-acinzentado (ele traz seu próprio cercadinho?), sentado numa caixa preta-acinzentada, toooodo coberto de pombos preto-acinzentados (será que ele rola no alpiste antes de vestir a roupa?) – pombos no cercadinho, no chão, pousados no ombro dele, na perna, no cabo do guarda-chuva... E ele parecia tão triste! Ele nem parecia se esforçar para ficar parado como as estátuas. Pelo contrário: ele estava levantando o dedo do meio para alguém que olhava!! Não consegui ver quem era. O homem-estátua estava mandando alguém tomar no cu!! E a expressão no rosto dele estava mais triste do que nunca.
Achei tudo muito curioso, dei uma risada, botei a cena na minha pastinha mental de "coisas bizarras que a gente vê por Londres", e segui meu caminho.

Mas continuei pensando no cara. Tomara que amanhã ele esteja lá de novo para eu olhar com mais calma.
Aquilo não era normal, parecia uma cena de filme, o homem preto-acinzentado, parado, coberto de pombos, todo deprimido... Parecia um conto de fantasia, ou algum filme de animação do leste europeu, que conta a história algum cara que trabalha num banco inglês (tipo o pai de família da Mary Poppins), tão preso naquela vida, tão apático e imóvel em sua rotina, que acaba sendo amaldiçoado por alguma bruxa disfarçada de velha que alimenta os pombos, tranformado em estátua humana. Ele odeia aquela vida, e toda vez que ele anda na beira do Tâmisa, da estação de Charing Cross até seu antigo banco, só por nostalgia, os turistas tiram fotos, os japoneses querem uma lembrança do homem-estátua na frente da roda-gigante, as criancinhas apontam, os pais jogam moedas, etc. E ele manda todo mundo tomar no cu. Ele não come, não trabalha, não dorme. Só vaga pela cidade, ele e os pombos que seguem aquela estátua, os pombos asquerosos que ele já cansou de tentar espantar, agora já se acostumou, até gosta deles, são sua única companhia em uma cidade que está tão acostumada a ver coisas bizarras que não estranha mais um homem preto-acinzentado arrastando seu guarda-chuva pela beira do rio.